Terça-feira, Novembro 18, 2008

Sobre a paixão

A paixão é pedra fundamental da vida.
Hoje toda a gente tem paixões. Das mais simples às mais arriscadas: Paixão por chocolate, (ou por comer, para os de boa boca) paixão por voar, por beber… por conduzir. (ou por conduzir bêbado) Paixão por trabalhar, por cantar, por ler, por não ler, por escrever, por dançar. Até paixão por viver…
De fato, uma vida sem paixão é completamente inconcebível já que apaixonar-se é uma das coisas essenciais para a vida, assim como comer, uma vida sem paixão está fadada ao fracasso e a paixão impulsiona os humanos a continuarem seguindo adiante.
O ser humano é movido a paixões. Sabe-se que ficar sem alimentar-se pode ocasionar fraquezas e, por fim, a morte. Tal qual o alimento físico é essencial para a vida humana, assim também o é o ato de apaixonar-se. A paixão registrada aqui não é meramente o sentimento entre duas pessoas, mas aquilo que impulsiona a vida. Se você trabalha e sente uma excitação indescritível ao fazê-lo, é porque sente paixão nisso. Se você estuda e acha incrivelmente bom continuar absorvendo conhecimento, é porque há paixão. Naturalmente, a paixão também leva a suspiros e palpitação, especialmente quando vê o ser amado.
Quando perde-se o tesão, a excitação, a paixão propriamente dita pela vida, então evidentemente você estará condenado ao fracasso. Uma vida sem paixão é completamente desestimulante e indigna de ser vivida. Por isso há tanta depressão e tristeza no mundo. As pessoas são infelizes quando deixam de lado a paixão e tornam-se mecânicas, robóticas. Viver sem paixão, é como não ter o oxigênio para respirar.
É triste perceber o que acontece quando falta paixão na vida de alguém. Quantos suicídios poderiam ser evitados se as pessoas recobrassem a antiga paixão que tinham? Muitos não percebem, mas é exatamente a paixão que motiva a continuar seguindo em frente. É muito mais fácil lutar contra as correntezas de uma vida atribulada e difícil quando se está usando os fortes remos da paixão. Se perder a paixão, perde-se a vida.
Porém, mais triste ainda é notar como algumas pessoas atribuem sentimentos ruins relacionados à paixão e a classificam como prejudicial.
Entretanto, os que pensam dessa forma estão equivocados. Esses pensamentos são gerados por um profundo desgosto relacionado ao não desenvolvimento pleno da paixão. Geralmente são pessoas infelizes com seus empregos, que não fazem o que gostam, que estão junto de pessoas com as quais não suportam, que agem de acordo com o que é socialmente pedido e não com o que sinceramente desejariam de fazer.
Apaixonar-se é a coisa mais maravilhosa que pode ocorrer a qualquer indivíduo. É ser tomado por uma felicidade incomensurável e jamais pensar em desistir.
Inferno é perder a capacidade de se apaixonar (Lea Waider)

Terça-feira, Outubro 07, 2008

Sobre a cultuação da beleza física



O mais importante é a beleza interior.
Quantas vezes ouve-se essa frase, tomada como verdade absoluta, para justificar a falta de atributos físicos de uma pessoa? Tal frase é tão usada que assumiu o status (se é que se pode classificar assim) de clichê. E um clichê mentiroso, diga-se de passagem.
Desde quando, nos dias atuais, a beleza interior é a mais importante?
Vale esclarecer que os padrões de beleza são ditados, principalmente, pelos meios de entretenimento, em especial a televisão e as revistas de moda. Portanto, se o indivíduo não se enquadra nos modelos pré-estabelecidos, ele pode ser considerado feio. Por exemplo, se você não tiver um corpo atlético (por corpo atlético leia-se, no caso dos homens, músculos bem trabalhados, corpos sarados, um belo peitoral e bíceps de no mínimo 35 cm de diâmetro, e, no caso das mulheres, seios fartos, glúteos avantajados, barriguinha reta e pernas torneadas) e uma aparência agradável (leia-se sorriso envolvente, dentes alvos, cabelos lisos e com cortes despojados, roupas transadas, de preferência que custem um valor obsceno). Ou seja, se não possui nada disso, você é feio e não adianta reclamar.
A beleza está nos olhos de quem vê.
Aí está um outro exemplo de um chavão pra lá de mentiroso. Nunca ouvi tão grande injúria. Fazendo uma pequena correção na frase, poderia-se dizer assim: a beleza está nos olhos de quem vê e da mídia que receitou os óculos. É engraçada essa alusão aos olhos. Já notou que quando se vê uma mulher atraente na companhia de um homem comum, dizem que ela está míope. Mas quem são os verdadeiros míopes? São aqueles que não deixam se levar pelo que é imposto como padrão estético ou aqueles que só enxergam beleza no que foi previamente estabelecido? Talvez muitos precisem de novos óculos (inclusive eu).
Pausa para uma reflexão!
Sabendo que a beleza é imposta por padrões defendidos por outros meios, quem é que gostaria de ter ao seu lado alguém que fuja disso? Quem é que teria um relacionamento com uma pessoa que não mantém tais padrões? É muito importante a honestidade, livre de hipocrisia. Dizer que o que importa é a beleza interior, mas procurar somente pessoas belas para companheiros, é no mínimo contraditória.
O comportamento atual seria um retrocesso a uma época em que louvava o culto à forma?
Questão difícil. Ninguém deseja ser acusado de valorizar apenas a aparência física. Todos procuram a junção perfeita entre forma e conteúdo. Sempre há a acusação de que se você tem forma, não tem conteúdo e vice-versa. Mas a fato é que supervaloriza-se a forma e subestima-se o conteúdo. E não seja cínico de dizer que isso não se aplica no seu caso!
Que tal abolir esses chavões, que funcionam como alívio de consciência, e adotar um que realmente condiz com a realidade?
“Os feios que me desculpem, mas beleza é fundamental”.

Quinta-feira, Outubro 02, 2008

Sobre a homossexualidade



Não se deve afirmar, categoricamente, que o homossexualismo é doença.
Médicos da Associação Psiquiátrica Norte-Americana (APA), após vinte anos pesquisando um grupo de homossexuais, chegaram a essa importante conclusão.
De fato, definir o homossexualismo como sendo uma patologia é inapropriado, pois tal conduta é encarada como sendo uma “alteração” da orientação sexual, várias associações médicas retiraram o termo da lista de doenças mentais e nenhum homossexual, que se propôs a certos tratamentos, foi “curado”.
Atualmente o Homossexualismo é considerado uma "alteração" da orientação sexual. Primeiramente, “alteração” não pode ser considerada doença, como se faz, por exemplo, com gravidez de gêmeos (alteração do número de fetos sem ser doença). Em segundo, "da orientação" significa se a pessoa está com sua sexualidade orientada para o sexo oposto ou para o mesmo sexo. Os cientistas ainda não têm resposta definitiva como uma orientação sexual em particular se desenvolve em qualquer indivíduo. Várias teorias têm sugerido diferentes fontes para a orientação sexual, inclusive fatores hormonais, genéticos ou congênitos, além de experiências vivenciadas durante a infância. No entanto, muitos cientistas compartilham a visão de que a orientação sexual seja moldada, na maioria das pessoas, nos primeiros anos de vida, através de complexas interações de fatores biológicos, psicológicos e sociais.
Em 1973, a Associação Psiquiátrica Norte Americana (APA) retirou o termo homossexualismo do manual oficial que lista todas as doenças mentais e emocionais. Em 1975, a Associação de Psicologia Americana aprovou uma resolução apoiando esta decisão. As duas associações estimulam todos os profissionais de saúde mental a ajudarem a banir o estigma de doença mental que alguns profissionais e pessoas ainda associam à orientação sexual.
Desde a desclassificação do homossexualismo como doença mental (a partir disso, adota-se o nome de homossexualidade), esta decisão foi subseqüentemente reafirmada por descobertas adicionais de outras áreas de pesquisa. Em 1984, a Associação Brasileira de Psiquiatria aprovou a seguinte resolução: “Considerando que a homossexualidade não implica prejuízo do raciocínio, estabilidade e confiabilidade ou aptidões sociais e vocacionais, opõem-se a toda discriminação e preconceito contra os homossexuais de ambos os sexos”.
Em 1985, o Conselho Federal de Medicina e, em 1994, a Organização Mundial de Saúde excluíram definitivamente da classificação internacional de doenças o código 302, que até então rotulava a homossexualidade como "desvio e transtorno sexual".
Mesmo não sendo a homossexualidade uma doença mental e não havendo razões científicas para que se tente a conversão de lésbicas ou gays em heterossexuais, alguns indivíduos tentam mudar a sua própria orientação ou a de uma outra pessoa (por exemplo, pais que procuram terapia para filhos). Alguns terapeutas que utilizam este tipo de terapia relatam ter mudado a orientação de seus clientes (de homo para hetero). Um exame minucioso de seus relatórios indica, porém, diversos fatores que lançam dúvidas sobre tais "curas": muitas dessas conclusões provêm de organizações com uma ideologia anti-homossexual e não de pesquisadores respeitados na área de saúde mental — charlatanismo; muitos desses tratamentos e seus resultados são documentados de forma insuficiente; e o período de acompanhamento do paciente após o tratamento é curto demais para confirmar a suposta "cura".
Em 1990, a Associação de Psicologia Americana afirmou que as evidências científicas não demonstram que a terapia de conversão funcione e que ela pode causar mais danos do que benefícios. A mudança da orientação sexual de uma pessoa não é apenas uma simples questão de mudança do comportamento sexual. Requer, também, a alteração dos sentimentos sexuais, românticos e emocionais, a reestruturação do conceito de si próprio e de sua identidade social e de gênero.
Porém, segundo alguns psiquiatras desinformados e grupos religiosos fanáticos querem continuar afirmando que a homossexualidade é doença, pois, de acordo com estes, há um desvio do que é “normal” devido a uma patologia e a pessoa opta por ser assim.
Entretanto, os que pensam dessa forma estão equivocados. Esses pensamentos são alicerçados no preconceito e na visão extremistas das coisas. Extensas pesquisas sérias e respeitadas, já feitas, não encontraram o “agente patológico” causador da homossexualidade. E quanto à opção, essas mesmas pesquisas já mostraram que a pessoa não escolhe sua sexualidade. Ela é orientada a isso devido a fatores já explanados.
Perpetuar a idéia de que a homossexualidade é doença, só serve para aumentar o preconceito e desrespeitar as diferenças. Medos e tabus que obstaculizam a divulgação destas informações podem prejudicar a definição saudável da orientação sexual de uma pessoa.
Portanto, nunca se deve esquecer que a livre orientação sexual é um direito humano fundamental.

Segunda-feira, Setembro 22, 2008

Sobre os momentos que te definem


Sempre me fizeram acreditar que eu era uma pessoa ruim. Aliás, em minha cidade, sou tido como alguém falso e perigoso. Não raro faço um amigo novo, ele já é alertado contra a periculosidade da minha companhia. Quando este amigo é alguém sem força de vontade e levado pelos ventos da opinião alheia. O fato é que depois de um tempo eu comecei a acreditar que realmente era alguém ruim. Qualquer ato humano que eu cometia já o denominava como uma das manifestações de minha personalidade maligna. O erro deixou de ser visto como característica natural e passou a ser encarado como traços malévolos presentes em mim. Até que chegou a ocasião em que eu passei a agir como alguém ruim. Pequenas maldades e leves delitos tornaram-se uma constante. Tornei-me sem moral e perdi todo a minha relação com a ética. Aliás, comecei a viver de acordo com a minha ética. Sim, eu criei um sistema de leis sociais sob as quais eu justificava todos os meus atos. E então, nada mais me feria a consciência. Pus-me em uma condição para além do bem e do mal.
Recentemente, travei contato com a trilogia “Fronteiras do universo”, de Phillip Pullman (escreverei sobre ela em ocasião futura). Dentre as muitas frases marcantes da obra, uma me levou a refletir profundamente sobre quem realmente sou: “Conteste tudo, menos a sua natureza!”. Esse foi o primeiro passo que me levou a questionar a minha natureza. Será que eu era incapaz de atos que não prejudicariam outros? Repassei todas minhas atitudes recentes e percebi que tudo o que fiz foi na intenção de auxiliar. No entanto, nem sempre fui totalmente compreendido.
O meu tormento a respeito da minha natureza continuou. Os questionamentos a respeito se eu sou bom ou mal tornaram-se cada vez mais insuportáveis. Geralmente existe um momento que define quem você para sempre. E este momento chegou.
Há um certo tempo, andei me relacionando com uma pessoa e até cheguei a acreditar que ele me amava. Mas como eu estava enganado. Depois de um tempo, descobri que fui usado da pior maneira possível e isso só me causou dor. Normalmente, eu reagiria de uma forma vingativa, buscando alternativas para destruir a pessoa em dois tempos. Eu até articulei algumas coisas a favor disso e estava preste a executar meu plano, quando algo aconteceu.
Era uma tarde cinza de domingo e um amigo estava presente. Eu disse a ele que não sabia o que fazer em relação a essa pessoa; se eu levava ou não meu plano adiante. Meu amigo disse que só dependia de mim. Então eu curvei minha cabeça e comecei a chorar. Eu sabia exatamente o que deveria ter feito. Liguei para a pessoa e assumi minhas intenções, mas disse que não faria isso porque algo em mim estava mudando. Eu não queria mais aquilo.
Engraçado que a partir de então, algumas verdades dogmáticas adotadas por mim começaram a ruir e uma transformação interna estranha tomou conta de mim. Confesso que ainda não terminaram todas as mudanças, mas encaminho para uma definição daquilo que me torna humano. Contudo, de uma coisa eu tenho certeza: não posso contestar minha natureza, mas posso direcionar minhas ações. E isso já é um belo começo.

Sexta-feira, Agosto 01, 2008

Sobre o meu primeiro disco (memê)

Adoro esses desafios propostos por blogs e que deixam o nosso espaço bem mais divertido. Este eu encontrei no Nerd-O-Rama e achei super divertido. Quem quiser fazer, é só seguir o passo-a-passo aí embaixo.


Meu primeiro disco. (Vi acá.)#01. Acesse http://en.wikipedia.org/wiki/Special:Random - o título da primeira página aleatória que aparecer será o nome da sua banda.#02. Vá pra http://www.quotationspage.com/random.php3 - as últimas quatro palavras da última frase da página formarão o título do seu disco.#03. Acesse http://www.flickr.com/explore/interesting/7days/ - a terceira foto, não importa qual seja, será a capa do seu disco.Opcional: salvar a imagem e colocar nome da banda e título com photoshop.


E o meu resultado foi esse:


Achei tão a minha cara...

Sexta-feira, Julho 18, 2008

Sobre os delays


Eu adoro minha amiga Gi, do Rio de Janeiro. Vez por outra nos embrenhamos em discussões filosóficas, antropológicas e humanitárias pra lá de válidas. E sempre chegamos em ótimas conclusões. A mais recente foi em relação aos delays.
Segundo a Wikipédia, Delay é o termo técnico usado para designar o retardo de sinais em circuitos eletrônicos, geralmente o atraso de som nas transmissões via satélite. Não sei se já aconteceu com algum de vocês, mas geralmente os delays acontecem comigo quando recebo ligações de outros países ou quando algum usuário do Brasil utiliza a comunicação telefônica via satélite. Após proferir uma sentença, sei que ela chegará ao meu interlocutor aproximadamente cinco segundos.
Descobri também que as emissoras de televisão de alguns países já se valem desse retardo. As redes norte-americanas, por exemplo, valeram-se desse recurso após o escândalo do Superbowl, final do Campeonato de Liga de Futebol Americana nos Estados Unidos, onde Justin Timberlake desnudou o seio de Janet Jackson. O mesmo recurso será usado este ano durante as Olimpíadas de Pequim já que o Governo Chinês quer evitar que discursos sobre a libertação do Tibet ou sobre as mazelas chinesas cheguem às TVs do mundo todo.
A Gi tinha um emprego onde lidava com pessoas no exterior e aqui no Brasil. Ela sempre conversava ao telefone e chegou a uma conclusão interessante: as ligações para o exterior eram muito mais produtivas que as feita aqui para o Brasil. Isso porque no exterior havia o delay e ela tinha um tempo a mais para pensar nas respostas, analisar o que foi dito e evitar grandes mal entendidos. Já nos telefonemas daqui não havia tempo para isso. Se ela dissesse uma coisa e fosse mal interpretada, não haveria tempo de fazer o mal entendido.
Claro que uma conversa apenas sobre telefonemas não poderia ter rendido um post no meu blog, né? O melhor foi o novo vôo alcançado pela conversa. Vivemos em um mundo onde tudo é muito rápido, onde o que se valoriza é a velocidade na comunicação. No entanto, relacionamentos humanos não são construídos com tamanha rapidez; é um processo lento e contínuo.
Se você diz alguma coisa ou toma alguma atitude e é mal interpretado, quase não há tempo de explicar-se. Aí o circo ta todo armado. E provavelmente uma briga será o resultado final dessa não compreensão. Mas imaginem só se em nossa vida houvesse uma delay. Alguém diz ou faz algo e você não pode responder logo de cara; tem que esperar uns cinco segundos antes de ter alguma reação. O que aconteceria? Durante o tempo do retardo, você teria tempo para analisar o que foi dito e pensar na melhor forma de responder sem prolongar a discussão. Um mundo perfeito para as relações humanas. Todavia, a nossa comunicação com outros não é feita por satélite e é impossível um delay tecnológico. Mas há uma forma de introduzirmos uma espécie de delay.
Existe uma regra de ouro que o “ouvir mais, falar menos”. E esta é tão difícil de se seguir. Para usar um argumento bem vagabundo, pense que nós temos apenas duas orelhas e uma boca, ou seja, ouvir mais e falar menos. Minha amiga disse que aprendeu muito com os delays e que hoje é uma pessoa que escuta muito mais do que fala e isso tem garantido ótimos frutos quando o assunto é relações humanas. Eu também, que sempre fui conhecido por ser extremamente falante, aprendi da pior maneira como é importante ouvir mais.
Quando você ouve mais que falar, o aprendizado é maior. Porque se só você fala, você aprende muito pouco com o seu interlocutor. E é isso que eu vou continuar fazendo. Pelo menos é uma maneira de aplicar o delay em minha vida.
Obrigado, Gi.

Segunda-feira, Julho 14, 2008

Sobre a política e a política partidária



Não sei quando comecei a me interessar por assuntos políticos. Talvez tenha sido na idade escolar quando me candidatei pela primeira vez a vice-presidente de um grêmio estudantil, em uma chapa que se valia da letra S estilizada para levantar sua bandeira. Eu estava na sétima série. Engraçado que na nossa mesma sala, outras duas chapas foram fundadas (FOGOE e FUMACE). Eu achei aquilo formidável. Uma única sala de aula comportar três chapas não era uma coisa muito comum. Ainda me recordo com nitidez as propagandas políticas que aqueles meninos de treze anos faziam: placas, cartazes, panfletos, alguns tinham até jingles. Como não poderia deixar de ser, ainda me lembro dos ataques difamatórios que a nossa chapa recebia da FOGOE e de como não compreendíamos os motivos para sofrermos aquelas injúrias. Ficamos em segundo lugar, com apenas treze pontos atrás da primeira chapa (FUMACE) o que foi extremamente meritório para mim que nunca me considerei muito popular entre os alunos. Mais meritório ainda foi receber o convite da chapa campeã para ajudarmos a administrar o grêmio estudantil e lutar pelos interesses dos alunos.
Minha segunda incursão pela política estudantil foi no ensino médio. Sempre quis melhorar o mundo a minha volta, especialmente na questão estudantil. Tínhamos uma diretora extremamente intransigente e inflexível e tudo era particularmente difícil naquela escola. Reuni-me com meus melhores amigos do segundo colegial e criamos a chapa GRUJ (Grêmio Revolucionário Ultra-Jovem, em franca alusão ao Disney Club, que enchia as tardes do SBT) para concorrer às eleições do grêmio estudantil daquele ano. Como adversários, enfrentaríamos a chapa formada pelos alunos mais populares, bonitos e queridos do terceiro colegial. Era mais ou menos uma disputa entre Davi e Golias, na qual nós éramos o elo mais frágil (quem é que escolheria os alunos nerds que, entre outras coisas, estavam no grupo de teatro e eram responsáveis pela fomentação cultural na escola?). Fomos esmagadoramente derrotados pelos mais populares e isso foi um incrível golpe contra o meu ego político, mas ensinou-me uma importante lição: nem sempre os mais preparados vencem; o gosto popular realmente é extremamente questionável. Não que nós fôssemos os melhores, mas francamente, escolher os meninos mais bagunceiros não me parecia a melhor escolha a ser tomada.
Depois disso, resolvi que nunca mais me envolveria com política tão diretamente. No entanto, não foi exatamente assim que aconteceu. Ao ingressar na faculdade, logo me interessei pelo Diretório Central dos Estudantes e pela situação precária que esta instituição enfrentava no âmbito acadêmico, sendo totalmente anêmica e pouco participativa. Além disso, tivemos que lidar com um advogado corrupto que há anos usava o dinheiro dos associados em benefício próprio. Criamos uma chapa e, para variar, enfrentamos concorrência. Esta era composta pelos populares alunos do curso de Publicidade e Propaganda e a nossa era pelos alunos de Letras. Qual não foi a minha surpresa ao ganharmos as eleições por apenas um voto de diferença. Creio que nunca comemorei tanto como naquela noite. Até me dei ao luxo de ir dormir as três da madrugada em plena segunda-feira.
O interesse pelo DCE foi apenas o começo. No meu primeiro ano de faculdade eu participei do 49º Congresso da União Nacional dos Estudantes (CONUNE), em Goiânia, GO. Sinceramente não estava plenamente preparado para toda aquele discussão política e a ida à Goiânia foi muito mais uma viagem de conhecimento de novos lugares que de crescimento da minha consciência política. Já no 50º CONUNE realizado em Brasília, eu já tinha idéia da minha função política dentro do movimento estudantil e pude participar com afinco das principais discussões sobre o rumo que as ações universitárias tomariam para conduzir o país a uma melhoria. Nunca me senti tão útil politicamente falando. Pude expor minhas idéias, consegui ouvir e fiz-me ser ouvido. Nunca antes minhas opiniões tinham sido tão respeitadas e nunca antes pude aprender tanto com as opiniões alheias. Retornei de Brasília uma pessoa extremamente diferente daquele que tinha embarcado.
E este ano é ano eleitoral. As cidades elegerão seus representantes do poder executivo e legislativo. E quando observo como os jogos políticos desenvolvem-se em minha cidade, lamento profundamente que nem todos puderam ter as experiências que eu tive. O que mais me dói é notar um ardor extremamente negativo a favor de uma política partidária, onde o melhor é aquele que eu mais gosto ao invés do mais preparado. Famílias inteiras chegam a ficar umas contra as outras só porque determinado membro é a favor de determinado candidato em detrimento do outro. Opiniões não são respeitadas e aquele que as expressas veemente podem até sofrer severas perseguições, dependendo do lado que estiver no poder. Ninguém visa o bem coletivo. Todos estão mais preocupados com o bem estar pessoal e em como tirar mais vantagem de acordo com o candidato eleito. E no fim, quem mais perde com tudo isso, é a cidade. Esta padece cada vez que o povo escolhe com o coração, quando o ideal seria o equilíbrio entre emoção e razão.
Eu gosto muito de discutir política, mas não esta coisa partidária que assola as cidadezinhas do interior, que vivem praticamente com o voto de cabresto e puro coronelismo. A pressão que muitos sofrem chega a ser desumana e cruel. Como funcionário público, passo por maus bocados. É complicado dizer que todos os candidatos possuem pontos positivos e negativos, sem parecer tendencioso com um outro. A impressão que tenho é que todos querem que você assuma um lado para depois poder te beneficiar ou prejudicar posteriormente. Acho graça quando escuto algumas pessoas me lançarem olhares suspeitos enquanto comentam: detesto gente que fica com um pé em cada barco, em cima do muro; eu visto a camisa e dou minha cara a tapa para quem quiser. Não fico em cima do muro e muito menos tenho um pé em cada barco. Simplesmente assumo uma postura que não irá me desfavorecer. Vejo o quanto essas pessoas em minha cidade sofrem por um nada. Elas não sofrem porque acreditam em um ideal, como aqueles estudantes e manifestantes políticos sofreram durante a ditadura militar. Não há um ideal em jogo. Há simplesmente uma preferência por certo político, seja por dívida de gratidão, seja por favorecimento pessoal, seja por ser familiar. Aliás, o único ideal que prevalece é aquele tipicamente comum em época de pedir votos: o que eu ganho em troca. Ninguém se interessa pelo que acontece na cidade. Só querem benefícios em cima dos cofres públicos. E ainda tem coragem de dizer que vestem a camisa?
Ainda espero que um dia todos possam unir-se em prol de um objetivo comum: a melhoria do lugar onde vivem. Um tanto quanto utópico, mas ainda assim é mais confortável crer nisso.